Assombra-me a ideia de que não mais ouvirei a melodia do teu riso. A mais bela melodia já ouvida, que parece ter sido construída pelo melhor dos compositores em seu maior momento de inspiração. Melodia que tocava em dias alternados em minha rádio, e que hoje ninguém mais liga para pedir tal canção. Agora o meu rádio só transmite chiados, e eu me limito a ficar escutando os ruídos sem desligar o aparelho. Fico aqui esperando que a melodia mais pedida volte a ser a tu risada. E semana passada, amor, tive o esplendor de tê-la como a mais tocada.
Sabes que aprecio a liberdade, mas jamais me senti presa quando em teus braços. Quando me tomas no colo com cuidado para que eu não pise no chão, e nesse mesmo universo de estar em teus braços, tu me roubas um beijo na barriga. E por esse roubo, amor, faço questão de dizer que nunca receberá penalidade. E que dor sinto eu por não deliciar-me mais nesse furto benéfico, que só nutria o nosso reino. E o amor, que residia na nossa ilha, acabara de se mudar. Mudou de cara, de roupa, de casa e de coração. E o que nos restou foi o azar do quase. Um quase amor, um quase viver, um quase desespero. Subestimamos o poder da nossa fogueira, meu bem, agora ela é somente cinzas.
E a infinidade de poder que continha o teu cheiro, foi levado pela brisa. Brisa… leve brisa, que mesmo sendo tão leve não foi parada pelo meu pára-brisas. O pára-brisas que não deixa o vento levar o cheirinho do café que fazes, nem das rosas brancas que me destes. Mas que deixou levar o mais precioso dos aromas, o mais doce perfume das flores, o teu. Mas aos poucos, amor, o jardim de nossa ilha vai voltando a florescer. O medo da distância já dá em uns botõezinhos, que estão perto da raiz de insanidade que eu plantei. E mesmo que demore, aos poucos vamos reconstruir todo o nosso reino, e o amor voltará a ser o mais belo de nossos vassalos.

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