terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dirceu



Deu vontade de te escrever, meu amor…
         O céu escureceu, Dirceu. Finalmente posso ver as estrelas que você disse que continuavam no céu, mesmo quando estivesse Sol. Quantas delas já me jurastes? Talvez seja necessário três céus para que sua divida seja paga. Nós que desenhamos esses pontinhos brilhantes todos os dias com nossas mãos, entrelaçadas como uma só. Desenhamos para que a beleza do nosso amor se fixe sobre a cabeça de cada ser solitário. Podemos, amor, desenhar estrelas com outras mãos por cima das nossas,  jurá-las a outros, mas apenas a minha mão unida a sua sabe desenhar a beleza desse imenso azul e é somente em suas juras que confio.
           Nós não nos alimentamos do amor, meu bem, ele que se alimenta de nós.
          E como uma criança que anseia o leite da mãe, eu o desejei. Desde às onze da noite, quando me ligas só pra sentir a minha submissão por você, quando as estrelas desenham nossos nomes. Numa floresta sem passarinhos, embaixo de uma árvore sem frutos, numa cozinha sem azulejos, aqueles cenários perfeitos pra gente deixar escapar um pouquinho do nosso amor, só pra que o mundo se torne um pouquinho melhor. Só pra gente chover um pouquinho nessa terra, e regar essas pessoas sem vontade de amar. Você bem sabe, Dirceu, que a Lua de tanto nos invejar tenta reviver nosso romance com o Sol. E coitada dela, desencaminha-se em nossa imensidão. Perde o brilho, perde a inspiração, e acaba perdendo o próprio amor quando tenta reviver o nosso, e acaba vivendo um amor falho feito de quase. E no seu maior momento de insuficiência acaba por entrar em seu eclipse. 
           E o nosso sorriso quase-sempre-prefeito acaba por destruir o pobre amado da Lua. Coitada, repito. Ela bem que poderia ser perfeita no seu amor, mas só quer o nosso! Logo esse sentimento que só pode ser sentido por nós. Esse sentimento que desgasta, que é adverso à felicidade, que é feito da nossa solidão a dois. Esse sentimento que não tem nome, mas tem um “que” de amor que vive nas beiradas, alimentando-se dos nossos excessos. Excessos de quando a gente se afoga no nosso “eu” e acaba construindo o nosso “nós”. 
           Às vezes me pergunto se no mundo há realmente espaço para nós, eu se Deus vai aumentando ele pra ver se a gente se cabe aqui, já que a nossa imensurabilidade dói tanto. Agora, Dirceu, a Lua veio confessar-me seus prantos. Tenho que consolá-la, já que sem querer somos culpados por seu sofrimento. Que a Lua acalme-se logo para que a noite termine. E que tenha espaço para nós nesse mundo de um amor só, o nosso.
                                                              Do seu segundo Sol.
                                                                        Marília.

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