Fantasia,
As vezes pergunto-me se tens planos, ou se seus planos constroem-se a partir dos meus. Espero que um dia a gente se encontre e você solucione esse teu mistério.
Eu tenho planos. Acho que a senhora os conhece. Do mais simples; ter uma casinha pequena, na varanda uma cadeirinha de balanço, e uma árvore ao lado da casa com um balanço nela, e com meus filhos brincando na calçada. Até o maior de todos; ter meu Dirceu ao meu lado.
Dona Fantasia, porque as vezes a senhora destrói tanto a gente? Diga-me, qual o prazer em ver o sofrimento dos outros? Chega a ser sadismo. Mas eu não sofro com isso sabe. A cada dia meus sonhos se renovam. Então tua tentativa de me ferir dizendo que não vou realizá-los não funciona. Eu acho.
Estou sozinha nessa luta, Dona Fantasia. Queria que alguém me desse o elixir da esperança e me mostrasse como é ser persistente. Ai eu fico me escondendo, tentando não realizar nenhum de meus sonhos. No meu caso, Dona Fantasia, eu sei que a senhora não faz nada pra me entristecer. Eu acabo fazendo isso sozinha. Me ferindo sozinha. E é nessa coisa de não tentar realizar que eu nunca me realizei. Nunca me satisfazer, porque afinal nunca fiz questão disso. É por isso que choro, Dona Fantasia. Não choro porque não realizo, choro pela minha falta de esperança.
Sinto como se eu estivesse de frente para uma montanha. Observando-a. Moro numa casinha na beira dela. E todas as manhãs eu a observo. Tento criar coragem para escalá-la. Mas sempre fico nessa de só olhar. De só admirar minha capacidade de sonhar. Um dia ei de subi-la, de pés descalços ainda mais. Subindo como se os espinhos no chão não existissem. Como se nada me ferisse. Depois vou descê-la. Vou poder contar pros outros como é lindo lá de cima. Como é bom sentir o vento bater tão forte na cara. Mas enquanto isso fico aqui. Olhando a grande montanha enquanto tomo uma xícara de café.
As vezes comparo-me a uma pássaro que tem as asas quebradas desde que nasceu. Fico vendo os outros pássaros voarem, trazendo-me seus cantos tão belos, que só sabem ser belos porque sabem voar. Já o meu canto, Dona Fantasia, é desafinado. Desafinado porque não sei voar, não sei como é a magia de um canto com inspiração. Mas se um dia eu cantar tão bem assim, Dona Fantasia, é porque aprendi a bater as asas. Ai eu vou cantar uma música só pra senhora.
de tua ainda não tão sonhadora,
Letícia.

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